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domingo, 8 de julho de 2012

Barretos na Revolução de 1932


A Revolução Constitucionalista iniciou-se em 9 de julho de 1932. Foi uma verdadeira guerra civil. Através de jornais e rádios, os paulistas fizeram campanha, conseguindo mobilizar grande parte da população. Os combates ocorreram, principalmente, no estado de São Paulo, região sul do Mato Grosso e região sul de Minas Gerais.
São Paulo contou com o apoio do  sul do Mato Grosso e enfrentou o  enfrentou o poder militar do das forças armadas federais. A rendição se deu em  28 de setembro de 1932. Cerca de três mil brasileiros morreram em combate e mais de cinco mil ficaram feridos durante a revolução.
       Em Barretos as primeiras notícias da revolução de 1932 chegaram no dia 10 de julho, por comunicações radiofônicas. No dia 11, por iniciativa do prefeito René Ferreira Pena e dos representantes da Frente Única local – Riolando de Almeida Prado e doutor Urbano de Brito  - foi aberta a inscrição de voluntários para o batalhão barretense. O primeiro inscrito foi José Flausino de Brito e em seguida mais homens. Nos cafés, nas noites, as pessoas se reuniam para saber das notícias. O batalhão barretense foi batizado com o nome do soldado Teopompo de Vasconcellos, que fora preso pela Ditadura por ter manifestado o apoio à causa constitucionalista.       


José Flausino de Brito, acervo Bié Machione

No dia 12 tinham sido escritos duzentos voluntários. Estudantes que estavam em São Paulo regressaram  e se alistaram no batalhão Teopompo,  depois no Marcondes Salgado. No dia 16 eram 333 e no dia  17, somavam 352.
 Muitos boletins foram impressos, distribuídos à população:  “O Batalhão  Theopompo de Vasconcellos, no desdobramento dos trabalhos de oraganização em que se acha empenhado para prestar o concurso de Barretos no grande prélio  militar pró-Constituição, vem pedir ao povo e ao comércio em geral, sem distinção de classe ou de nacionalidade, todo e qualquer auxílio, como sejam: donativos em dinheiro, calçados, roupas feitas, cigarros e tudo mais quanto possa servir para o equipamento de uma tropa em campanha. 
Esses donativos deverão ser entregues na Prefeitura à comissão encarregada de os receber, composta dos senhores capitão José Felício Gomes, doutor Nicácio Serafim Barcellos, Plínio Junqueira Franco e Belmiro Zenha. A mesma comissão dispõe de um livro especial para o registro dos donativos. O Batalhão pede também o concurso dos senhores médicos, farmacêuticos, enfermeiros e enfermeiras, alfaiates, mecânicos, chauffeurs e escoteiros.
Para as distintas senhoritas que já se apresentaram e que ainda se apresentam para a Cruz Vermelha, o Batalhão já instituiu na Santa Casa, sob a direção  dos doutores Urbano de Brito e Carmélio Guagliano, um curso de enfermeiros.
O Batalhão está igualmente providenciando os meios de amparo às famílias dos soldados pobres, que partiram para a lucta em defesa do Brasil e de São Paulo.
Espero, outro sim, que os senhores comerciantes, além dos donativos que não deixaram de enviar à Comissão referida, levem o concurso mais longe, dispensando do serviço os seus empregados inscriptos, sem prejuízo por parte de seus empregos e ordenados, enquanto durar o movimento nacionalista.
Os terrenos do Hypódromo vão ser preparados para campo de aviação. Os serviços de Intendência de Guerra estão também em organização. O distincto e honrado comerciante desta praça, senhor Alexandre Assad, já entregou à Comissão, expontaneamente, 50 metros de brim káki, para fardamento da tropa.
O Batalhão de Barretos, como se vê, está promovendo todos os meios de sair para a lucta perfeitamente fardado e com as responsabilidades civis dos soldados asseguradas. Espera, por isso, que o povo e o comércio venham em seu auxílio para maior felicidade de sua missão patriótica”.
  Jerônimo Serafim Barcellos foi escolhido representante dos voluntários barretenses.   No dia 22 os alistados partiram para Ribeirão Preto e no dia 23 seguiu  para Olímpia -  que estava ameaçada de ser invadida -  um grupo de 52 soldados barretenses.  Os soldados permaneceram oito dias em Olímpia, voltando para Barretos, sendo enviados para Laranjeiras, Porto Antônio Prado e fazenda Poção e depois para Barra Grande.        

Os 52 de Olímpia, fonte Jornal "Barretos Memórias"


De 16 a 21 de agosto  alguns barretenses estiveram nas trincheiras do Porto Tabuado. Outros foram para Eleutério, Itapira e outras zonas fronteiriças. Em cinco de setembro, o batalhão “Marcondes Salgado” composto por barretenses seguiu em quase sua totalidade até a cidade de Limeira. Partindo para Barra Grande, um grupo composto por vinte soldados recebeu armamentos do Capitão Benevides Figueira. No dia 8 de setembro, vários voluntários guarneceram os setores da Barra da Onça, do córrego da Bananeira e Porto da Rapadura, e em 26 de setembro, a tropa recebeu ordens para seguir até a cidade de Campinas.
Em 26 de setembro houve a retirada das tropas para Campinas.  Muitos  deixaram de atender à ordem e foram para suas casas, outros seguiram para a Estação.  
Osório Faleiros da  Rocha narrou a retirada dramática do que restou das tropas constitucionalistas em 26 de setembro de 1932 quando a certeza da derrota da causa dos paulistas tomara conta dos ânimos barretenses. 
Na cidade as casas permaneciam  fechadas e quando os militares remanescentes que partiam em direção a São Paulo já estavam todos acomodados dentro dos vagões da Paulista, pouco antes da partida, um soldado bêbado, começou  a fazer bagunça.  Com um sabre na mão, agitava-o, desafiando a todos. Por fim prenderam-no no cubículo do correio. Não adiantou. Ele acabou escapando pela janela, conseguiu o sabre novamente e pôs-se a movimentá-lo em desafio.
            O motorista do capitão  Clementino,  José Bernardes, manobrou o fuzil e em seguida deu dois tiros no bêbado, que continuava trocando passos, sorrindo. Parece que aqueles dois tiros foram sinal para o começo de um tiroteio, vindo de todos o lados, de fora em direção à composição,  pronta para partir e de dentro do trem para o rumo à plataforma. Um capitão, chamado Mangeri,  de dentro de um vagão, pela janela, disparou mais dois tiros sobre o cadáver do bêbado que caíra a beira da plataforma e rolara abaixo no leito dos trilhos, ficando sentado morto entre as rodas do carro e o ressalto da plataforma.
            Osório Rocha dentro do trem presenciou toda aquela cena de violência inesperada e desnecessária, pois se tratava apenas de um embriagado inofensivo. E sem reação ante a brutalidade do ato ficou à beira de uma janela do vagão, exposto,  enquanto todos os seus companheiros, deitados, escutavam o barulho sinistro das balas perdidas em ricochetes.
            Finalmente o trem seguiu seu caminho se distanciando vagarosamente da plataforma. O cadáver perfurado de balas acabou esmagado pelas rodas. Sobre esta  fuzilaria existe uma versão garantida por alguns que aponta como causa de toda confusão armada o fato de que aquele trem levava parte do ouro arrecadado na campanha “Ouro para o Bem de São Paulo”.  


Tiro na grade da estação, acervo Bié Machione

             Alguns espertalhões promoveram na saída do trem o tiroteio para que o carregamento precioso fosse desviado no caminho por cúmplices aliciados.  Algumas pessoas comentavam que  Anibal Vieira, que se encontrava naquele comboio, teria sido contratado para que isto acontecesse.
            A outra versão é que tudo não passou do estado de ânimo sobressaltado dos soldados paulistas em retirada. Deste incidente, que ficou na história de Barretos como o chamado tiroteio da Estação, existe ainda uma lembrança física, lá mesmo, onde aconteceu a tragédia, um marco daquele dia sinistro. O pesquisador Bié Machione descobriu numa das hastes de ferro da alta grade que margeava e protegia a  plataforma, a marca do tiro. 


Referências
ROCHA, Osório Faleiros da. "Barretos de Outrora" e "Reminiscências". 

Um comentário:

  1. Texto conciso e bastante informativo. Parabéns. Não conhecia detalhes da participação de Barretos (e barretenses) na Revolução. As publicações que conheço dão mais ênfase para a participação da capital, de Campinas e das cidades do Vale do Paraíba.

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